segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vendedor

Enquanto ouvia
Conselhos
Vendia a alma
Vendia verbo a preço de
Ouvidos
Vendia olhares
A preço de tempos perdidos...
A Spínola

domingo, 22 de novembro de 2009

O encontro do forrozeiro com o lobisomem para salvar a moça donzela

Foi um dia de sexta-feira...
Era noite de lua cheia
Com um ar de lobisomem
Lá pelas bandas do povoado
Ouvia-se o som de um forró.
Quase meia-noite
Sai na direção da furdunça.
Passando pelo Riacho da Onça,
Nas vizinhanças do Umbuzeiro Doce
Ouvi o ruído infernal:
Era um grunido abafado
De fera,
Atacando moça donzela
Nas matas escuras perto do milharal .
Partir inconsequentemente ,
Sem fumo, faca, ou facão.
Metia-me no mato
Desesperado com os gritos,
Caminhando sobre velame capim caboclo e urtiga.
Num parava nem pra coçar as pernas!
Até que vi um rastro do meio da estrada da Vila;
Eram pés de moça donzela
Arrastada pela fera,
Que rasgara sua roupa e
Deixara pedaços jogados ao chão.
Passei pela cabana de Maria Rezadeira,
Pedi proteção.
Lembrava da sanfona afinada que ouvia
Acompanhada pelo som estridente do triângulo,
E pela batida abafada do zabumba de Chico Cigano.
Lembrei do canivete que trazia no bolso do jaleque.
Ah! Ainda bem que tava armado
Podia encarar a besta fera, ficar frente a frente,
E mudar a sorte da moça...
(Foto da casa de Maria Rezadeira feita com uma Sansung 7.2 mega, em Nov. de 2007)
A Spínola

Beleza pura

Se
Nunca disseram
O quanto
És linda
Não
Serei
eu a dizer
Não
Digo
Não
Digo
Não
Digo
Augusto Spínola

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Vumbora, Cabras!" - Viagem de estudos a Paulo Afonso




Passava de meio-dia quando o bando passou a se preparar para bater em retirada. Iam sair da boca do sertão, caminhando pela caatinga adentro na direção da Cachoeira de Paulo Afonso. Uma jornada árdua, debaixo de um sol de mais de 30ºC.
Homens e mulheres do grupo ajeitavam seus bornais, tendo o cuidado de observar se os cantis estavam cheios. Precisariam de muita água, e o capitão não era lá muito chegada a parar em qualquer lugar para obter provisões. Mais fácil parar se alguém caísse de febre, ou se fosse para rever algum compadre - precisando de um coito para atender algum ferido. Não seria provável acontecer nenhuma das duas coisas desta vez, pois todos no bando demonstravam muita saúde, e a pressa para chegar à divisa de três estados – Bahia, Sergipe e Alagoas – um lugar seguro para qualquer sujeito que escolhesse viver vagando pelos campos do sertão nas margens do Rio São Francisco. O pensamento fazia o grupo apressar-se e começar uma marcha inesquecível.
Já era noite quando aqueles homens e mulheres errantes, que construíam suas histórias sobre o chão das caatingas e envoltos em sons de mugidos de bois e canto de bem-te-vis chegaram ao seu destino. Puseram-se a procurar artigos nos bornais e deitaram-se para descansar, não sem antes tomar a precaução de entender quem ficaria em cada canto, em cada direção, de olho na vida, no tempo que passava e que muitas vezes cobrava para que as pessoas pudessem vê-lo passar: Tirava a vida de companheiros, fazia companhia a sonhos e noites daqueles que insistiam em viver.
No outro dia bem cedinho, rumaram para a região de Xingó, lá na beira de Sergipe. Vigiaram tudo cuidadosamente. Discutiram onde acampariam para comer rapadura. Ainda debaixo do sol do meio-dia, entraram na gruta de Xingó onde encontravam pinturas feitas na pedra e esqueletos de outros homens que morreram por ali. A gruta lembrava uma escavação, um cuidadoso tabuleiro do jogo de damas, onde podia se enxergar pedras, pedaços de cerâmica, restos de carvão queimado e pontas de velhas lanças. Rumaram para Piranhas depois da rapadura, onde cumpriram obrigação como determinava o capitão: passaram pela igreja em romaria e cada qual fez seus pedidos, rezou suas preces. Algumas mulheres subiam as escadarias resmungando, mas com medo de serem ouvidas pelo capitão. Já pela tarde, antes do pôr-do-sol, estavam de volta a Cachoeira de Paulo Afonso onde passariam a noite.
Após um breve sono, homens e mulheres já se arrumavam para andar em reconhecimento pela beira do rio. Foi quase um dia buscando novos abrigos, novos conhecimentos que poderiam salvar a vida de alguém do grupo, ou favorecer um parto, ou ainda um arrasta pé sobre o lajedo. Pararam quase noite, quando perceberam a presença de um macaco que falava sobre uma revista ilustrada e sobre o Raso da Catarina, que o capitão e mais alguns homens que formavam o bando, pareciam conhecer bem. Daquela conversa veio o plano de rumarem para o Raso e marcarem esconderijos.
Conheceram na entrada do Raso a família de Lídia. A antiga componente do grupo fora morta pelo companheiro após traição e ninguém do grupo parecia querer tocar naquele assunto. Algumas mulheres deixaram as lágrimas correrem, mas engoliram em seco o acontecimento. Entraram no Raso e contactaram os pankararés. Receberam carne de bode, farinha e reza. Muitas rezas. Mas tiveram que sair apressados ao notarem a passagem do tempo. De volta a Paulo Afonso, recolheram os pertences que haviam deixado escondidos espalhados pelas pedras da cachoeira. Saíram apressados para não travarem fogo com as volantes que pareciam chegar perto. O capitão resmungou algo sobre a demora, e deixou sair algumas palavras que pareciam senha para uma nova partida: “Vumbora cabras!” E lá ia o grupo serpenteando a caatinga, na direção de outra bandas, de outras paragens... Vão-se cabras, a cada ano mais amadurecidos e cientes do que o destino lhes reservou...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009


No meio da mata o Bugio.
Sereno, admirando o céu cinza-azulado e raro daquelas bandas de caatinga. O cavalo faz uma referência esticando o pescoço para baixo. Deve ser um sinal de que o mundo vai desabar. Em breve, raios, trovões e muita chuva transformará a vida naquele sertão. O bugio continuará sereno, escondido entre as árvores...

(Foto feita em 2008, com uma Sansung 7.2 megapixels)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Calçadão da Sales Barbosa

Como se vários
Rádios
Estivéssem
Sintonizadas
Num programa
de Vendas,
Vozes roucas
Saiam
Das portas de cada
barraca-loja
Da Sales Barbosa:
"É hoje, é hoje, é hoje
Tudo a dez!"
Até que chegava
A noite
E o calçadão
Morria
Deixando à mostra
Um monte de
Lonas
Amarradas.

A. Spínola

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Lua no Sábado de Aleluia



No sábado de aleluia, à noite, até a lua resolveu aparecer timidmente para ver os fogos da queima do Judas... Parecia Lua de festa junina, enfeitando o céu entrecortado de brilhos de foguetes estourados, de bombas e de canhões de estrelas... (Imagem produzida em 2008, a partir de uma Sansung, de 7.2 megapixels)

domingo, 30 de agosto de 2009

A casa do rio Paraguassú


Nas margens do Rio Paraguassú em Cachoeira - Ba, encontra-se esta casa. Uma casa de pau-a-pique, como quase não se vê mais. Mas se vê. O lixo na frente da casa demonstra que existem pessoas vivendo aí. A antena sinaliza uma busca pelo mundo. Um desejo de se encontrar, de se vê do outro lado. As portas e janelas estão fechadas. Decerto era uma quarta-feira e a família havia saido em direção a feira livre da cidade, há uns seis quilometros do local. Bem... mais tarde devem estar chegando. Talvez assistam algum telejornal...(Foto capturada através de uma Sansung, 7.2 megapixels, em 2009)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Voo do gavião - destino sertanejo



O "voo do gavião" aqui ao lado, confirma a calmaria que predomina no sertão no período da estiagem... Uma calma medida, tensa, sorrateira... Vazia... A vítima não deve ter notado a sua chegada... Ele sobrevoa, ela arrasta-se... O lance final não será um bote. Aqui até as serpentes têm vidas curtas...
(Imagem feita em 2007, a partir de uma câmera Samsung, com 7.2 megapixels)

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

São João em Cachoeira - Junho de 2009

Gostaria de inaugurar esta nova série de postagens com fotografias, com uma imagem de Feira de Santana... Mas não tenho uma imagem/fotografia minha, como esta aí de Cachoeira, (feita do celular, um Sony Ericsson W580i) da Rua do Porto, enfeitada para o São João, com detalhes do Paraguassú... Cachoeira é uma larga memória...

domingo, 9 de agosto de 2009

Senhor dos Passos

A imagem
Eram as torres
Da igreja
Cinza.
Não, verde.
Aliás
Qual é a cor da Senhor dos Passos?
Misturava-se a copas de árvores
E quebra-queixos
E me fazia ver
Estudantes
Com camisas
Brancas
Do Santanópolis
Correrem
Por entre barracas
Em direção às suas casas
Na Conselheiro
Eram outros tempos
De Feira.

A Spínola

Um sonho

Um sorriso amanheceu no canto da boca
Feito sorriso de menino endiabrado
Com cara de quem aprontou algumas

Sorriso vindo de pensamento bobo
De visões excitantes, das saudades
De fogueiras acesas em noites de lua

Vai ver menino
Teve um sonho com uma bruxa de Avalon
De outros tempos e História

E lá andava no meio do mato
No meio das brumas, ciente de não ser conhecido
Senão pelos sonhos da floresta

Por isso o sorriso no canto da boca
Se fosse no Brasil diria que parecia o curupira
Encostado no troco da árvore pitando

Resmungando palavras que seriam sempre suas
Xingamentos
Por não saber conquistar a lua

Coisas de menino ...

A Spínola

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Ansiedade

A pressa
Do tempo
Não me deixa

La
Será que
Me falta
Tempo?

A. Spínola

Tatuagem

Quando pulei
Do
17º andar
Descobrir
Que a dor
Era
Maior
Que a dor
De fazer
Uma tatuagem...
Mas aí
Já era tarde...


Augusto Spínola

quinta-feira, 2 de julho de 2009

A puta feira

Um registro

De uma Feira contemporânea

caótica,

perdida

confusa

Sem memória

Sem controle

Que cresce e se deprecia

em busca do novo

Dito moderno


da grana que se concretiza

Em estacionamentos e condomínios

e destroi as coisas belas

Que puta, a Feira!

Augusto Spínola e Adauri Porto

Alva

Sobre
Uma pele
Tão branca
Apenas
Um batom
Vermelho...
E eu.

Augusto Spínola

domingo, 7 de junho de 2009

Um bilerte

Aprendi
A separar
Silabicamente
Tantas palavras...
Separei
Os meus sentimentos
Uma
Duas vezes
Ler
Te
Bi-ler-te

A. Spínola

sábado, 2 de maio de 2009

Bando de cangaceiros

Quarenta graus
Vinte e tantos homens
Algumas mulheres
Um bando
De não sei quantos destinos
Um sol
Um caminho
Quantas noites sem dormir
Tantas madrugadas
Um punhal
Um rifle
Um parabelum
Muitas balas
Um chapéu de couro
Pouca água
Caminhos de tocaias
E desacertos
Ôxe! Deixa disso!
É somente
Um cangaceiro
Bando de cangaceiro
Que dia mais dia
Acaba
E fica na memória
É assim na história

Augusto Spínola Jr.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Assalto

Roubaram meus abraços
Meus carinhos
Meus
Instantes de telepatia
Roubaram minha alma
Minha sina
Meus
Instantes de profecias
Até que apareci na madrugada
Que nem raio
Cicatriz
No corpo do universo
Enquanto deslizava
Entre asteróides
Escrevia
Versos
para a vida

Augusto Spínola Jr.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Contemplação

Enquanto
o relógio
Me marca
passo
O tempo


Augusto Spínola Jr.

Gente da Feira

Feirante
Barraqueiro
Comerciante
Camelô
Freguesa
Vendedor
Carregador
Abençoado
Irmão
Sacoleiro
Policial
Prostituta
Ladrão
Artesão
Caminhoneiro
Rezadeira
Açogueiro
Cantador
Vaqueiro
- Faltou alguém na feira?
...Então se aproxime freguês!

Augusto Spínola

domingo, 15 de março de 2009

O vaqueiro de Feira de Santana

Amanhã é noite de Lua
Cheia
De mim
Vaqueiro infeliz
***
Amanhã
Às escondidas
A Lua
Me conta de um “roba - boi“
Na casa das estrelas
***
Nesta noite,
Viajantes
Cegos errantes,
Berram por compreensões dialéticas
Nos caminhos tortuosos de Lucas e
Da Feira


Augusto Spínola

Trama

...Ao prazer
Das quânticas ondas do universo
Por ordem do destino
As parcas
Tramam
Por nós...

A Spínola

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sábado, carros de mão, frutas e verduras, gritos, olhares atravessados, moleques, padre, policial e ... a noiva!

Manhã de sábado e uma buzina estridente anuncia o caminhão de frutas e verduras chegando à feira. Vem das bandas de Sergipe. Ainda ontem à tarde chegara a caminhonete vinda da Paraíba, carregada de milho. A partir de quarta-feira, era um movimento de carro que fazia medo. A barca chegava do Recôncavo, carregada de bananas, e em seguida, não parava de chegar carros e carroças, carregados, cada um, de um determinado produto, trazido desta ou daquela região. O carro que buzinara vinha de Sergipe. Não ficava perto. Mas devia valer a pena vir até aqui. Trezentas léguas nos separavam de lá. Mas devia valer a pena. Na feira, de manhãzinha, fregueses e freguesas se misturavam... Encontravam-se e disputavam mercadorias. Aqui, pareciam lutar por batatas, cenouras, quiabos, maxixes; ali, parecia ser por pimentas, pimentão, couve, chuchu... Mais adiante os produtos da própria região: milho, feijão, farinha, feijão verde, ovos... A disputa era intensa por cada quantidade. Não que faltasse. Num período de chuvas, a produção aumentava consideravelmente. Todos já sabiam disto. Era justamente o contrário do que acontecia no período de estiagem. Nesta época do ano, entre os meses de março e agosto, por causa das chuvas do inverno, todas as colheitas estavam garantidas. Não faltariam frutas, verduras e legumes mesmo. Se fosse apurar, a produção local daria para todos. Mas a feira se agigantava. Vinham pessoas dos arredores, dos povoados vizinhos para vender e comprar. Até o padre da região se misturava ao povo num corpo-a-corpo que lembrava uma luta de vale-tudo. As rezadeiras que tinham, digamos, um bom contato com os serviços da casa paroquial informavam que ele preferia escolher os produtos que comeria ao invés de mandar alguém fazê-lo. Era daquela terra o santo padre e sabia que um olhar menos direcionado, faria lançar as mãos sobre os produtos menos indicados. Devido à astúcia dos comerciantes, não faltavam tomates apodrecidos, batatas-doces passadas, aipins duros demais – envelhecidos – e quiabos que não quebravam a ponta com facilidade, revelando que não estavam verdes. Não estavam no ponto. Misturavam-se aos que foram colhidos recentemente, e acabava dando um padrão de qualidade inferior que aquele merecido, pois os produtos colhidos na semana da feira eram de fazer inveja!
Na área próxima às verduras, barracas que vendiam frutas também eram numerosas. Às vezes, misturavam frutas e verduras, mas alguns barraqueiros organizavam sua vida e eram conhecidos por isto, por comercializarem apenas frutas. Melancias cada vez maiores e mais doces, umbus, pronunciado aqui imbú, uma fruta verde e pequena, excelente para sucos e a famosa imbuzada feita com leite; jabuticaba, pretinha e deliciosa, hummm! Araçás, bananas - que eram sortidas: prata, maçã, d’àgua, e da terra - além de cajus, cajás, mamões e outras que vinham de terras longínquas. Ali não se fazia muito a salada de frutas. Não era comum. Cada fruta era apreciada individualmente. Ninguém costumava misturar. Até a produção de suco, que era comum, não chegava a superar a degustação da fruta in natura.
O imbú sempre esteve presente na vida do povo da comunidade, numa relação muito favorável para os moradores de uma terra marcada por períodos de sol muito forte e prolongadas secas que poderia durar mais de um ano! Nas raízes, a árvore acumula água e ajudando na obtenção do líquido para qualquer necessidade, até para fazer café! As folhas sempre foram serventia para a alimentação do gado e a frutinha, verdinha ou amarela (quando madura), pode ser saboreada por qualquer animal da natureza, e o humano talvez seja o que mais se aproveita disso. A produção do imbu e curiosa: não existem plantações de pés de imbú. Existem imbuzeiros em quase todas as terras da região. Muitos, muitos, muitos. De várias características: carnudos, lisos, azedos, docinhos... Hum... Deliciosos! Achá-los na feira, não era tarefa das mais duras. Mais vale lembrar que somente entre Dezembro e Fevereiro haveria frutinhas nos bocapios, nos cestos, ou baldes.
Havia uma região da feira voltada para a comercialização de carnes. Ali, bois, carneiros, bodes, porcos e galinhas, eram vendidos de tudo quanto era jeito. Quartos de bodes e carneiros estavam dependurados num prego de ripa; quilos de carnes oriundas do boi, cupins, fígados, tripas... Estavam, simplesmente, jogados no balcão de madeira, para que cada freguês se sentisse à vontade para escolher. Um fato de carneiro ou porco, para se fazer um meninico ou sarapatel, custava pouco e satisfazia muita gente. Uma fatada era um prato especial; deveria ser saboreada quente, com amigos, e com uma pinga das boas e talvez algumas cervejas. Ah! Sempre que havia festas na casa do comerciante, ou do fazendeiro, serviam fatadas e bebidas. Divinas fatadas. Se fosse dia de batizado ou de alguma outra comemoração, poderiam ter um pouco de cada coisa. Carnes assadas, como churrasco, em fogueiras improvisadas, panelas de cerâmica, cozinhando meninicos, feijoadas e fatadas, num fogo de fogão à lenha... E tripas torradas numa frigideira, servidas com farofa e tomates com cebolas, como uma entrada, para que saboreassem e imaginassem o que estava por vir.
Havia também carnes de porco. Gordura – o toucinho – os pés e as orelhas. Tudo aproveitado para pratos diversificados. O torresmo era imbatível. Claro que fazia um mal danado! Mas... Pra quem? Ora, todos comiam e ninguém reclamava! Era uma das vantagens do viver naquele lugar. Também, com tanto trabalho no dia-a-dia! O roçado envolvia o trabalhador, ou trabalhadora, o dia todo. Quem se lembraria da gordura do torresmo?!? Quem se lembraria das feijoadas carregadas de orelhas e pés de porco? Dos cozidos? Ninguém ali. Todos gastariam no próximo dia de trabalho. No próximo dia comum a qualquer um daquele lugar. O trabalho era uma marca daquela gente...
O boi poderia ser comprado em qualquer canto. Talvez o açougueiro fosse o próprio criador. Talvez cuidasse daquele animal há alguns anos. Sabia tudo sobre a sua vida. Talvez desconhecesse o porco. Como viera parar ali? Ah! Comprara nas mãos de um amigo, de um povoado vizinho. Quem o criara? De que forma o alimentara? Em que condições criara o animal? Tratara-o bem? E aquele carneiro? Lembrava-se dele. Era do compadre da Serra Escura. Era um dos seus. Criado num capinzal que dava gosto. Aquela seria uma boa carne para comer. O bode viera dos lajedos... lá no alto da fazenda do Galego do Cuscuz. O galego viera das bandas de Xique-Xique. Trouxera alguns bodes e começara a criá-los ali. Tudo ia bem. Vendia um bode danado. E nos dias da feira, vendia muito mais ainda. O povo comprava que dava gosto. Naquele dia, depois da carne de carneiro, era a que mais vendia.
As galinhas eram comercializadas todos os dias da semana. Normalmente era a carne menos vendida nos dias de feira. Sabe-se lá por quê! Todos criavam, todos vendiam... Acontecia de algumas vezes, em algumas feiras, venderem mais ovos que galinhas. Até codornas – moqueadas – eram mais vendidas que galinhas. Mas se vendia galinhas.
Neste espaço de carnes, não se notava a presença das caças. Os animais eram vendidos no corpo-a-corpo. Os caçadores moqueavam os animais – veados, jibóias, codornas, teiús... Colocavam em cestos de cipós, e vendiam-nos oferecendo nas casas dos possíveis compradores. Algumas jias, capturadas à noite eram bastante apreciadas. Diziam parecer carne de galinha. Enquanto faziam cozidos de carne de teiús e mocós, as carnes de jias, veados e jibóias, eram assadas. E refinavam a culinária daquele lugar. A feira continuava com estas iguarias e uma variedade de cheiros. De carnes, de frutas, verduras e gente. Muita gente para um espaço que se tornava pequeno.
Meninos com carrinhos de mão atropelavam-se uns aos outros disputando outro tipo de mercadoria: fregueses. Poderiam carregar suas compras e ganhar alguns trocados. Andavam apenas de bermudas, sem camisa, sem sandálias, um ou outro era encontrado de tênis, com várias marcas de frutas que escorregavam pelos seus corpos. Vinham carregados de saquinhos de laranjas, de goiabas, de melancias, mas tão logo descarregavam seus carrinhos, voavam nas direções dos fregueses. Uma vez, até deu confusão por causa disto. Um destes meninos, saindo em disparada, passou por cima do pé de uma freguesa que não se fez de rogada: girando numa tentativa de encontrar com o olhar o moleque que havia atropelado-a, gritou! Lançou um grito tão estridente que quase acabou a feira! – mal se recuperou, pegou um belo pepino e lançou sobre o garoto! Já que ele não respeitava os mais velhos, seria acertado, castigado para aprender uma lição. O pepino deve ter saído a uns cento e dezessete quilometros por hora!!! Rasgava caminhos por entre barracas viajando na direção da cabeça do menino. Ora, acontece que a pontaria da dona senhora não era lá grande coisa. Passou longe do menino e... atingiu... Atingiu o padre! Este rodou, ou será que viu o mundo rodar? Caiu estatelado! Deu um gritinho (confessou logo depois), caiu e ficou esperando socorro. A multidão se desesperou. Uma comadre, daquelas freguesas assíduas da feira, logo saiu para ajudar a resolver tamanho problema: De imediato ela achava que poderia se destacar na missão padre atingido. Era só se dirigir à delegacia e notificar o ocorrido: polícia fora chamada!
A polícia local se resumia a um policial que normalmente não colocava os pés fora da delegacia. Fora os momentos em que saía para comer, dormia religiosamente, como se fosse devoto de um Éolo, ou Orfeu.
Mas o policial local era um bom sujeito. Chegara há pouco tempo à comunidade, mas conseguira um bom entrosamento com muitas pessoas. Até com as velhas senhoras e crianças. Morava num quarto da pensão do local, e vivia entre a delegacia e este espaço.
Algumas raríssimas vezes (juram) fora visto no bar da esquina jogando conversa fora e sinuca. Não parecia ser um bom jogador, mas também não era dos piores. Conseguia boas tacadas e quando o adversário permitia, fechava um jogo. Mas estava longe de ser um dos melhores do lugar. Ou de atrever-se a jogar com algum deles e ganhar. Não. Isto nunca aconteceu. Não jogava apostado com ninguém e quando se servia de uma bebida, ele mesmo pagava. Era boa gente. Ou parecia ser. Mas todos, em cochicho, falavam da sua solteirice. Por que não saía com as mulheres- fadas da comunidade? Será que tinha um contra feitiço? Será que a profissão, a corporação não lhe permitia algumas escapulidas? Bah! Ninguém acreditava nisto. Só se sabe que quando o sujeito chegou à feira, o padre fingiu um desmaio. Parecia querer chamar a atenção (mais ainda? depois de ter sido atingido pelo pepino!!!). Foi levado nos braços do policial até a sua casa. A casa paroquial. Melhorou, mas notou que uma multidão tomava a sua porta. Ele precisava saber controlar a situação... Pediu água. Perguntou o que acontecera e o que aquele povo fazia ali. O que será que queriam? O policial estava desconcertado. Será que o padre perdera a memória? Não se lembrava que estava na feira e fora atingido na testa por um pepino? O policial falava desconfiado. O povo começara a insinuar que ele levara a noiva para casa... E agora? O que diriam quando ele saísse da casa paroquial? Abusariam dele? Ou tratariam o caso com seriedade? Como ficaria a sua autoridade depois que carregara a noiv... o padre para a casa bem na manhã da feira, com todos olhando? Precisava sair e afastar o povo. Como reagiriam? E se ele precisasse conter alguém? Prender alguém? Aquele beberrão que dormia sempre à frente da cadeia, parecia querer lhe dizer algo sobre o padre. Ou pelo menos sempre resmungava algo sobre o santo padre, antes de desmaiar, naquilo que parecia ser dormir seu sono. Conhecera vários sujeitos daqueles. Mas este, (ou seria o lugar?), era diferente. Não parecia saber o que era ser um policial e, que sem a farda, um policial não passava de mais um sujeito qualquer, que come, bebe, acende bode, que sonha com o futuro, com festas e dinheiro. Mas também, quando andara sem a farda pela última vez? Ele sem a roupa de policial, o padre sem a batina... Droga. No que estava pensando? Lá fora continuava os sussurros sobre a sua vida, sobre o episódio na feira, o maldito pepino atirada a esmo, o menino endiabrado... Mas qual seria o motivo de falarem tão baixo sobre ele? O seu envolvimento com o padre? Os seus dias debaixo da lona da barraca, bebendo e esperando pacientemente a chegada da noite para, pardo, não ser reconhecido e melhor entrar na casa paroquial? Sabia que era apenas uma sombra sob um chapéu. Será que algum dia alguém o tinha visto? Talvez as senhoras que cuidavam da casa... Ora! E daí?!? Não poderia freqüentar a casa do padre? Não. Não poderia. Todos falavam e falariam da sua relação que já era sabida com o homem santo! Este por sua vez, continuava a fingir uma tontura. Chamara seu herói e esperava dele uma bela lição no menino – que a esta altura, identificado, já havia apanhado do pai, levado uma repreensão da senhora-freguesa, pois esta alegava que havia jogado o pepino por causa do carrinho no seu pé - e este o atingira, não escapando do momento de fúria daquela senhora! Mas se ela estivesse com uma melancia, ou uma jaca? Se estivesse com uma faca de tratar carne? Ora! Onde já se viu? Perder o controle daquela maneira!!! E finalmente, esperara pelo seu herói, pois queria tê-lo ali consigo. Almoçar com ele – claro - não poderia perder a oportunidade de agradecê-lo por tê-lo socorrido. A oportunidade estava ali, mesmo diante de suas mulheres, aquelas beatas, rezadeiras que não permitiam que desse um passo sem estar à sua sombra e a população da comunidade, que também já o importunara, de convidar o policial para ficar ali na sua presença até que se sentisse melhor. Que manhã de feira mais promissora! Mas será que tudo ocorreria como estava pensando? Nada lhe escaparia de ultima hora?
O sol não dava trégua, mas a população também não arredava o pé. Uma marcação. Queria notícias da saúde do padre. Mas fora apenas um pepinozinho que atingira a testa do vigário. Um susto e nada de mais. Mas a sua saída nos braços do policial dera à cena uma conotação de gravidade que não esperava. Agora, queriam uma notícia dele. Foi quando ele resolveu sair à janela e falar-lhes. Mostrou-se abatido – um ator profissional não lhe roubaria um prêmio de ser ovacionado por aquela cena. Perfeito. O povo começou a sair, misturando-se á feira que construíra, desconstruíra, reconstruiria de novo. O policial voltara à delegacia. Não aceitara o convite para o almoço. Não entendera as intenções do padre? Ou preferira não fazê-lo? Quais as reais intenções de tal convite? O vigário ficara louco. Não poderia jamais ficar ali. Ao sair da casa paroquial, teve a impressão de ouvir alguém falar quem sair por último é mulher do padre. Mas nem olhou para a direção de onde partira o grito de insinuação. Para a delegacia. Ali era onde se sentiria em casa, no seu mundo, entre celas, chaves, um facão, carimbos, uma mesa velha, uma sandália que usava quando tirava a botina, e... Ratos! O lugar era pequeno. Cinza-escuro numa parte e um tom bege noutra. Cor de burro quando foge, como costumavam falar no lugar. Não havia um só prisioneiro ali... Uma viva alma, além da dele. Faz tempo, prendera alguém por aquelas bandas. Foi uma ordem da capital. Um verdadeiro trio nordestino estava fabricando moedas falsas e precisavam ser detidos. Com urgência. O telegrama falava urgente e aguarde ação da policia federal. Ixe! A coisa devia ser seriíssima. Então ele rumou a toda para a tenda do ferreiro. Quem mais poderia estar fabricando tais coisas se não fossem eles?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Falano na Feira

Placas
De
Compro ouro
Misturam-se
A tantas
Outras
Figuras de linguagem
Que marcam
Nossas passagens
Na Feira
- Cê vai na cumade Maria?
Traiz
Tarco
E sabonete.

Augusto Spínola Jr.