domingo, 22 de novembro de 2009

O encontro do forrozeiro com o lobisomem para salvar a moça donzela

Foi um dia de sexta-feira...
Era noite de lua cheia
Com um ar de lobisomem
Lá pelas bandas do povoado
Ouvia-se o som de um forró.
Quase meia-noite
Sai na direção da furdunça.
Passando pelo Riacho da Onça,
Nas vizinhanças do Umbuzeiro Doce
Ouvi o ruído infernal:
Era um grunido abafado
De fera,
Atacando moça donzela
Nas matas escuras perto do milharal .
Partir inconsequentemente ,
Sem fumo, faca, ou facão.
Metia-me no mato
Desesperado com os gritos,
Caminhando sobre velame capim caboclo e urtiga.
Num parava nem pra coçar as pernas!
Até que vi um rastro do meio da estrada da Vila;
Eram pés de moça donzela
Arrastada pela fera,
Que rasgara sua roupa e
Deixara pedaços jogados ao chão.
Passei pela cabana de Maria Rezadeira,
Pedi proteção.
Lembrava da sanfona afinada que ouvia
Acompanhada pelo som estridente do triângulo,
E pela batida abafada do zabumba de Chico Cigano.
Lembrei do canivete que trazia no bolso do jaleque.
Ah! Ainda bem que tava armado
Podia encarar a besta fera, ficar frente a frente,
E mudar a sorte da moça...
(Foto da casa de Maria Rezadeira feita com uma Sansung 7.2 mega, em Nov. de 2007)
A Spínola

Beleza pura

Se
Nunca disseram
O quanto
És linda
Não
Serei
eu a dizer
Não
Digo
Não
Digo
Não
Digo
Augusto Spínola

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

"Vumbora, Cabras!" - Viagem de estudos a Paulo Afonso




Passava de meio-dia quando o bando passou a se preparar para bater em retirada. Iam sair da boca do sertão, caminhando pela caatinga adentro na direção da Cachoeira de Paulo Afonso. Uma jornada árdua, debaixo de um sol de mais de 30ºC.
Homens e mulheres do grupo ajeitavam seus bornais, tendo o cuidado de observar se os cantis estavam cheios. Precisariam de muita água, e o capitão não era lá muito chegada a parar em qualquer lugar para obter provisões. Mais fácil parar se alguém caísse de febre, ou se fosse para rever algum compadre - precisando de um coito para atender algum ferido. Não seria provável acontecer nenhuma das duas coisas desta vez, pois todos no bando demonstravam muita saúde, e a pressa para chegar à divisa de três estados – Bahia, Sergipe e Alagoas – um lugar seguro para qualquer sujeito que escolhesse viver vagando pelos campos do sertão nas margens do Rio São Francisco. O pensamento fazia o grupo apressar-se e começar uma marcha inesquecível.
Já era noite quando aqueles homens e mulheres errantes, que construíam suas histórias sobre o chão das caatingas e envoltos em sons de mugidos de bois e canto de bem-te-vis chegaram ao seu destino. Puseram-se a procurar artigos nos bornais e deitaram-se para descansar, não sem antes tomar a precaução de entender quem ficaria em cada canto, em cada direção, de olho na vida, no tempo que passava e que muitas vezes cobrava para que as pessoas pudessem vê-lo passar: Tirava a vida de companheiros, fazia companhia a sonhos e noites daqueles que insistiam em viver.
No outro dia bem cedinho, rumaram para a região de Xingó, lá na beira de Sergipe. Vigiaram tudo cuidadosamente. Discutiram onde acampariam para comer rapadura. Ainda debaixo do sol do meio-dia, entraram na gruta de Xingó onde encontravam pinturas feitas na pedra e esqueletos de outros homens que morreram por ali. A gruta lembrava uma escavação, um cuidadoso tabuleiro do jogo de damas, onde podia se enxergar pedras, pedaços de cerâmica, restos de carvão queimado e pontas de velhas lanças. Rumaram para Piranhas depois da rapadura, onde cumpriram obrigação como determinava o capitão: passaram pela igreja em romaria e cada qual fez seus pedidos, rezou suas preces. Algumas mulheres subiam as escadarias resmungando, mas com medo de serem ouvidas pelo capitão. Já pela tarde, antes do pôr-do-sol, estavam de volta a Cachoeira de Paulo Afonso onde passariam a noite.
Após um breve sono, homens e mulheres já se arrumavam para andar em reconhecimento pela beira do rio. Foi quase um dia buscando novos abrigos, novos conhecimentos que poderiam salvar a vida de alguém do grupo, ou favorecer um parto, ou ainda um arrasta pé sobre o lajedo. Pararam quase noite, quando perceberam a presença de um macaco que falava sobre uma revista ilustrada e sobre o Raso da Catarina, que o capitão e mais alguns homens que formavam o bando, pareciam conhecer bem. Daquela conversa veio o plano de rumarem para o Raso e marcarem esconderijos.
Conheceram na entrada do Raso a família de Lídia. A antiga componente do grupo fora morta pelo companheiro após traição e ninguém do grupo parecia querer tocar naquele assunto. Algumas mulheres deixaram as lágrimas correrem, mas engoliram em seco o acontecimento. Entraram no Raso e contactaram os pankararés. Receberam carne de bode, farinha e reza. Muitas rezas. Mas tiveram que sair apressados ao notarem a passagem do tempo. De volta a Paulo Afonso, recolheram os pertences que haviam deixado escondidos espalhados pelas pedras da cachoeira. Saíram apressados para não travarem fogo com as volantes que pareciam chegar perto. O capitão resmungou algo sobre a demora, e deixou sair algumas palavras que pareciam senha para uma nova partida: “Vumbora cabras!” E lá ia o grupo serpenteando a caatinga, na direção de outra bandas, de outras paragens... Vão-se cabras, a cada ano mais amadurecidos e cientes do que o destino lhes reservou...