domingo, 15 de março de 2009

O vaqueiro de Feira de Santana

Amanhã é noite de Lua
Cheia
De mim
Vaqueiro infeliz
***
Amanhã
Às escondidas
A Lua
Me conta de um “roba - boi“
Na casa das estrelas
***
Nesta noite,
Viajantes
Cegos errantes,
Berram por compreensões dialéticas
Nos caminhos tortuosos de Lucas e
Da Feira


Augusto Spínola

Trama

...Ao prazer
Das quânticas ondas do universo
Por ordem do destino
As parcas
Tramam
Por nós...

A Spínola

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Sábado, carros de mão, frutas e verduras, gritos, olhares atravessados, moleques, padre, policial e ... a noiva!

Manhã de sábado e uma buzina estridente anuncia o caminhão de frutas e verduras chegando à feira. Vem das bandas de Sergipe. Ainda ontem à tarde chegara a caminhonete vinda da Paraíba, carregada de milho. A partir de quarta-feira, era um movimento de carro que fazia medo. A barca chegava do Recôncavo, carregada de bananas, e em seguida, não parava de chegar carros e carroças, carregados, cada um, de um determinado produto, trazido desta ou daquela região. O carro que buzinara vinha de Sergipe. Não ficava perto. Mas devia valer a pena vir até aqui. Trezentas léguas nos separavam de lá. Mas devia valer a pena. Na feira, de manhãzinha, fregueses e freguesas se misturavam... Encontravam-se e disputavam mercadorias. Aqui, pareciam lutar por batatas, cenouras, quiabos, maxixes; ali, parecia ser por pimentas, pimentão, couve, chuchu... Mais adiante os produtos da própria região: milho, feijão, farinha, feijão verde, ovos... A disputa era intensa por cada quantidade. Não que faltasse. Num período de chuvas, a produção aumentava consideravelmente. Todos já sabiam disto. Era justamente o contrário do que acontecia no período de estiagem. Nesta época do ano, entre os meses de março e agosto, por causa das chuvas do inverno, todas as colheitas estavam garantidas. Não faltariam frutas, verduras e legumes mesmo. Se fosse apurar, a produção local daria para todos. Mas a feira se agigantava. Vinham pessoas dos arredores, dos povoados vizinhos para vender e comprar. Até o padre da região se misturava ao povo num corpo-a-corpo que lembrava uma luta de vale-tudo. As rezadeiras que tinham, digamos, um bom contato com os serviços da casa paroquial informavam que ele preferia escolher os produtos que comeria ao invés de mandar alguém fazê-lo. Era daquela terra o santo padre e sabia que um olhar menos direcionado, faria lançar as mãos sobre os produtos menos indicados. Devido à astúcia dos comerciantes, não faltavam tomates apodrecidos, batatas-doces passadas, aipins duros demais – envelhecidos – e quiabos que não quebravam a ponta com facilidade, revelando que não estavam verdes. Não estavam no ponto. Misturavam-se aos que foram colhidos recentemente, e acabava dando um padrão de qualidade inferior que aquele merecido, pois os produtos colhidos na semana da feira eram de fazer inveja!
Na área próxima às verduras, barracas que vendiam frutas também eram numerosas. Às vezes, misturavam frutas e verduras, mas alguns barraqueiros organizavam sua vida e eram conhecidos por isto, por comercializarem apenas frutas. Melancias cada vez maiores e mais doces, umbus, pronunciado aqui imbú, uma fruta verde e pequena, excelente para sucos e a famosa imbuzada feita com leite; jabuticaba, pretinha e deliciosa, hummm! Araçás, bananas - que eram sortidas: prata, maçã, d’àgua, e da terra - além de cajus, cajás, mamões e outras que vinham de terras longínquas. Ali não se fazia muito a salada de frutas. Não era comum. Cada fruta era apreciada individualmente. Ninguém costumava misturar. Até a produção de suco, que era comum, não chegava a superar a degustação da fruta in natura.
O imbú sempre esteve presente na vida do povo da comunidade, numa relação muito favorável para os moradores de uma terra marcada por períodos de sol muito forte e prolongadas secas que poderia durar mais de um ano! Nas raízes, a árvore acumula água e ajudando na obtenção do líquido para qualquer necessidade, até para fazer café! As folhas sempre foram serventia para a alimentação do gado e a frutinha, verdinha ou amarela (quando madura), pode ser saboreada por qualquer animal da natureza, e o humano talvez seja o que mais se aproveita disso. A produção do imbu e curiosa: não existem plantações de pés de imbú. Existem imbuzeiros em quase todas as terras da região. Muitos, muitos, muitos. De várias características: carnudos, lisos, azedos, docinhos... Hum... Deliciosos! Achá-los na feira, não era tarefa das mais duras. Mais vale lembrar que somente entre Dezembro e Fevereiro haveria frutinhas nos bocapios, nos cestos, ou baldes.
Havia uma região da feira voltada para a comercialização de carnes. Ali, bois, carneiros, bodes, porcos e galinhas, eram vendidos de tudo quanto era jeito. Quartos de bodes e carneiros estavam dependurados num prego de ripa; quilos de carnes oriundas do boi, cupins, fígados, tripas... Estavam, simplesmente, jogados no balcão de madeira, para que cada freguês se sentisse à vontade para escolher. Um fato de carneiro ou porco, para se fazer um meninico ou sarapatel, custava pouco e satisfazia muita gente. Uma fatada era um prato especial; deveria ser saboreada quente, com amigos, e com uma pinga das boas e talvez algumas cervejas. Ah! Sempre que havia festas na casa do comerciante, ou do fazendeiro, serviam fatadas e bebidas. Divinas fatadas. Se fosse dia de batizado ou de alguma outra comemoração, poderiam ter um pouco de cada coisa. Carnes assadas, como churrasco, em fogueiras improvisadas, panelas de cerâmica, cozinhando meninicos, feijoadas e fatadas, num fogo de fogão à lenha... E tripas torradas numa frigideira, servidas com farofa e tomates com cebolas, como uma entrada, para que saboreassem e imaginassem o que estava por vir.
Havia também carnes de porco. Gordura – o toucinho – os pés e as orelhas. Tudo aproveitado para pratos diversificados. O torresmo era imbatível. Claro que fazia um mal danado! Mas... Pra quem? Ora, todos comiam e ninguém reclamava! Era uma das vantagens do viver naquele lugar. Também, com tanto trabalho no dia-a-dia! O roçado envolvia o trabalhador, ou trabalhadora, o dia todo. Quem se lembraria da gordura do torresmo?!? Quem se lembraria das feijoadas carregadas de orelhas e pés de porco? Dos cozidos? Ninguém ali. Todos gastariam no próximo dia de trabalho. No próximo dia comum a qualquer um daquele lugar. O trabalho era uma marca daquela gente...
O boi poderia ser comprado em qualquer canto. Talvez o açougueiro fosse o próprio criador. Talvez cuidasse daquele animal há alguns anos. Sabia tudo sobre a sua vida. Talvez desconhecesse o porco. Como viera parar ali? Ah! Comprara nas mãos de um amigo, de um povoado vizinho. Quem o criara? De que forma o alimentara? Em que condições criara o animal? Tratara-o bem? E aquele carneiro? Lembrava-se dele. Era do compadre da Serra Escura. Era um dos seus. Criado num capinzal que dava gosto. Aquela seria uma boa carne para comer. O bode viera dos lajedos... lá no alto da fazenda do Galego do Cuscuz. O galego viera das bandas de Xique-Xique. Trouxera alguns bodes e começara a criá-los ali. Tudo ia bem. Vendia um bode danado. E nos dias da feira, vendia muito mais ainda. O povo comprava que dava gosto. Naquele dia, depois da carne de carneiro, era a que mais vendia.
As galinhas eram comercializadas todos os dias da semana. Normalmente era a carne menos vendida nos dias de feira. Sabe-se lá por quê! Todos criavam, todos vendiam... Acontecia de algumas vezes, em algumas feiras, venderem mais ovos que galinhas. Até codornas – moqueadas – eram mais vendidas que galinhas. Mas se vendia galinhas.
Neste espaço de carnes, não se notava a presença das caças. Os animais eram vendidos no corpo-a-corpo. Os caçadores moqueavam os animais – veados, jibóias, codornas, teiús... Colocavam em cestos de cipós, e vendiam-nos oferecendo nas casas dos possíveis compradores. Algumas jias, capturadas à noite eram bastante apreciadas. Diziam parecer carne de galinha. Enquanto faziam cozidos de carne de teiús e mocós, as carnes de jias, veados e jibóias, eram assadas. E refinavam a culinária daquele lugar. A feira continuava com estas iguarias e uma variedade de cheiros. De carnes, de frutas, verduras e gente. Muita gente para um espaço que se tornava pequeno.
Meninos com carrinhos de mão atropelavam-se uns aos outros disputando outro tipo de mercadoria: fregueses. Poderiam carregar suas compras e ganhar alguns trocados. Andavam apenas de bermudas, sem camisa, sem sandálias, um ou outro era encontrado de tênis, com várias marcas de frutas que escorregavam pelos seus corpos. Vinham carregados de saquinhos de laranjas, de goiabas, de melancias, mas tão logo descarregavam seus carrinhos, voavam nas direções dos fregueses. Uma vez, até deu confusão por causa disto. Um destes meninos, saindo em disparada, passou por cima do pé de uma freguesa que não se fez de rogada: girando numa tentativa de encontrar com o olhar o moleque que havia atropelado-a, gritou! Lançou um grito tão estridente que quase acabou a feira! – mal se recuperou, pegou um belo pepino e lançou sobre o garoto! Já que ele não respeitava os mais velhos, seria acertado, castigado para aprender uma lição. O pepino deve ter saído a uns cento e dezessete quilometros por hora!!! Rasgava caminhos por entre barracas viajando na direção da cabeça do menino. Ora, acontece que a pontaria da dona senhora não era lá grande coisa. Passou longe do menino e... atingiu... Atingiu o padre! Este rodou, ou será que viu o mundo rodar? Caiu estatelado! Deu um gritinho (confessou logo depois), caiu e ficou esperando socorro. A multidão se desesperou. Uma comadre, daquelas freguesas assíduas da feira, logo saiu para ajudar a resolver tamanho problema: De imediato ela achava que poderia se destacar na missão padre atingido. Era só se dirigir à delegacia e notificar o ocorrido: polícia fora chamada!
A polícia local se resumia a um policial que normalmente não colocava os pés fora da delegacia. Fora os momentos em que saía para comer, dormia religiosamente, como se fosse devoto de um Éolo, ou Orfeu.
Mas o policial local era um bom sujeito. Chegara há pouco tempo à comunidade, mas conseguira um bom entrosamento com muitas pessoas. Até com as velhas senhoras e crianças. Morava num quarto da pensão do local, e vivia entre a delegacia e este espaço.
Algumas raríssimas vezes (juram) fora visto no bar da esquina jogando conversa fora e sinuca. Não parecia ser um bom jogador, mas também não era dos piores. Conseguia boas tacadas e quando o adversário permitia, fechava um jogo. Mas estava longe de ser um dos melhores do lugar. Ou de atrever-se a jogar com algum deles e ganhar. Não. Isto nunca aconteceu. Não jogava apostado com ninguém e quando se servia de uma bebida, ele mesmo pagava. Era boa gente. Ou parecia ser. Mas todos, em cochicho, falavam da sua solteirice. Por que não saía com as mulheres- fadas da comunidade? Será que tinha um contra feitiço? Será que a profissão, a corporação não lhe permitia algumas escapulidas? Bah! Ninguém acreditava nisto. Só se sabe que quando o sujeito chegou à feira, o padre fingiu um desmaio. Parecia querer chamar a atenção (mais ainda? depois de ter sido atingido pelo pepino!!!). Foi levado nos braços do policial até a sua casa. A casa paroquial. Melhorou, mas notou que uma multidão tomava a sua porta. Ele precisava saber controlar a situação... Pediu água. Perguntou o que acontecera e o que aquele povo fazia ali. O que será que queriam? O policial estava desconcertado. Será que o padre perdera a memória? Não se lembrava que estava na feira e fora atingido na testa por um pepino? O policial falava desconfiado. O povo começara a insinuar que ele levara a noiva para casa... E agora? O que diriam quando ele saísse da casa paroquial? Abusariam dele? Ou tratariam o caso com seriedade? Como ficaria a sua autoridade depois que carregara a noiv... o padre para a casa bem na manhã da feira, com todos olhando? Precisava sair e afastar o povo. Como reagiriam? E se ele precisasse conter alguém? Prender alguém? Aquele beberrão que dormia sempre à frente da cadeia, parecia querer lhe dizer algo sobre o padre. Ou pelo menos sempre resmungava algo sobre o santo padre, antes de desmaiar, naquilo que parecia ser dormir seu sono. Conhecera vários sujeitos daqueles. Mas este, (ou seria o lugar?), era diferente. Não parecia saber o que era ser um policial e, que sem a farda, um policial não passava de mais um sujeito qualquer, que come, bebe, acende bode, que sonha com o futuro, com festas e dinheiro. Mas também, quando andara sem a farda pela última vez? Ele sem a roupa de policial, o padre sem a batina... Droga. No que estava pensando? Lá fora continuava os sussurros sobre a sua vida, sobre o episódio na feira, o maldito pepino atirada a esmo, o menino endiabrado... Mas qual seria o motivo de falarem tão baixo sobre ele? O seu envolvimento com o padre? Os seus dias debaixo da lona da barraca, bebendo e esperando pacientemente a chegada da noite para, pardo, não ser reconhecido e melhor entrar na casa paroquial? Sabia que era apenas uma sombra sob um chapéu. Será que algum dia alguém o tinha visto? Talvez as senhoras que cuidavam da casa... Ora! E daí?!? Não poderia freqüentar a casa do padre? Não. Não poderia. Todos falavam e falariam da sua relação que já era sabida com o homem santo! Este por sua vez, continuava a fingir uma tontura. Chamara seu herói e esperava dele uma bela lição no menino – que a esta altura, identificado, já havia apanhado do pai, levado uma repreensão da senhora-freguesa, pois esta alegava que havia jogado o pepino por causa do carrinho no seu pé - e este o atingira, não escapando do momento de fúria daquela senhora! Mas se ela estivesse com uma melancia, ou uma jaca? Se estivesse com uma faca de tratar carne? Ora! Onde já se viu? Perder o controle daquela maneira!!! E finalmente, esperara pelo seu herói, pois queria tê-lo ali consigo. Almoçar com ele – claro - não poderia perder a oportunidade de agradecê-lo por tê-lo socorrido. A oportunidade estava ali, mesmo diante de suas mulheres, aquelas beatas, rezadeiras que não permitiam que desse um passo sem estar à sua sombra e a população da comunidade, que também já o importunara, de convidar o policial para ficar ali na sua presença até que se sentisse melhor. Que manhã de feira mais promissora! Mas será que tudo ocorreria como estava pensando? Nada lhe escaparia de ultima hora?
O sol não dava trégua, mas a população também não arredava o pé. Uma marcação. Queria notícias da saúde do padre. Mas fora apenas um pepinozinho que atingira a testa do vigário. Um susto e nada de mais. Mas a sua saída nos braços do policial dera à cena uma conotação de gravidade que não esperava. Agora, queriam uma notícia dele. Foi quando ele resolveu sair à janela e falar-lhes. Mostrou-se abatido – um ator profissional não lhe roubaria um prêmio de ser ovacionado por aquela cena. Perfeito. O povo começou a sair, misturando-se á feira que construíra, desconstruíra, reconstruiria de novo. O policial voltara à delegacia. Não aceitara o convite para o almoço. Não entendera as intenções do padre? Ou preferira não fazê-lo? Quais as reais intenções de tal convite? O vigário ficara louco. Não poderia jamais ficar ali. Ao sair da casa paroquial, teve a impressão de ouvir alguém falar quem sair por último é mulher do padre. Mas nem olhou para a direção de onde partira o grito de insinuação. Para a delegacia. Ali era onde se sentiria em casa, no seu mundo, entre celas, chaves, um facão, carimbos, uma mesa velha, uma sandália que usava quando tirava a botina, e... Ratos! O lugar era pequeno. Cinza-escuro numa parte e um tom bege noutra. Cor de burro quando foge, como costumavam falar no lugar. Não havia um só prisioneiro ali... Uma viva alma, além da dele. Faz tempo, prendera alguém por aquelas bandas. Foi uma ordem da capital. Um verdadeiro trio nordestino estava fabricando moedas falsas e precisavam ser detidos. Com urgência. O telegrama falava urgente e aguarde ação da policia federal. Ixe! A coisa devia ser seriíssima. Então ele rumou a toda para a tenda do ferreiro. Quem mais poderia estar fabricando tais coisas se não fossem eles?

domingo, 25 de janeiro de 2009

Falano na Feira

Placas
De
Compro ouro
Misturam-se
A tantas
Outras
Figuras de linguagem
Que marcam
Nossas passagens
Na Feira
- Cê vai na cumade Maria?
Traiz
Tarco
E sabonete.

Augusto Spínola Jr.

domingo, 21 de dezembro de 2008

O sujeito, a fada, o marido (ou o amante), o uirapuru, o menino, a fulana, as parcas e a feiticeira.

Vinte e três e quinze. Estamos em pleno inverno. A situação em torno de cada barraca que configura a feira está sob controle: lonas pretas, azuis, amarelas, tornaram-se apenas lonas escuras. Não conseguimos mais identificar as pessoas. Apenas vultos, ‘fantasmas’, movimentam-se debaixo dos chapéus. Um barulho de vidro se despedaçando quebra o silêncio da noite e revela um copo de cachaça no chão. De certo algum bêbado... Talvez um feirante, ou um vaqueiro, (quem sabe?) que se esqueceu da hora de ir para casa! Estava apegado com a vida pós-feira: ‘foia podre’, aboios, causos, e fadas! Hahahahaha! Fadas! Mulheres que sempre sabem como e a quem encantar! Encantou o sujeito desta noite. Fez com que ele se esquecesse do tempo, do cavalo, da casa, não da feira! Dela, mulher da feira! Fada! Encantadora. E que decote! Que quadril, que forró! Hummmm! Que momento para ver-se na hora de ir! Novo barulho de vidro quebrando, outro copo que caia – agora seguido de um grito e de uma correria! Não mais eram (apenas) as mãos de um bêbado que soltara um copo. Era um copo que caia por estar nas mãos de uma briga! Mãos que soltara um copo para segurar um facão! Enquanto do outro lado, uma faca tipo ‘peixeira’, 14 polegadas, cada vez mais era apertada pelo marido da fada! Ah! Esqueci de dizer que aqui perto da feira algumas fadas têm marido, ou amantes oficiais que se julgam no direito de tê-las quando quiserem e com exclusividade! Enquanto acontecia a disputa pela fada, esta se agarrava à cintura do seu escolhido naquele momento. No fundo sentia-se satisfeita por ser o motivo da luta entre faca e facão. Notava-se entre seus momentos de tensão um sorriso, uma mistura de vulgaridade e preciosidade! A faca passara perto do peito e o facão cruzara a linha do abdômen. Tripas caiam e o ex-dono aterrorizado tentava segurá-las! O sujeito da feira fugia e livrava-se da sua fada! Afastava as suas mãos e montava no cavalo misturando mais ainda à noite. Ele agora era somente um tropel. Um cavalgar que amenizava e desaparecia. Pena. Para o ex-dono. O sujeito do cavalo que desaparecera, cavalgava e por certo só pararia quando encontrasse um coito, um esconderijo, uma acolhida segura. Teria ido para casa?
Às vezes, nos dias de feira, acontecem problemas como este em plena luz do dia. O sol e algumas nuvens que teimam passar como se estivessem numa passarela para nuvens, tentando mostrar como seriam as próximas dos próximos invernos, ou como seriam as próximas nuvens das trovoadas que eram esperadas por todos os homens, mulheres e crianças que compunham a feira, eram as testemunhas de um crime. De mais um crime que acontecia. Não por uma disputa por fada, mas por um jogo, por um baralho que só roubava a uns, não aos outros; por dados mágicos que encantavam somente alguns olhos, não os outros. Ou por outros tipos de magia: acusações de roubos que nunca acontecera (fora outra pessoa!); lobisomens nas casas de farinha que assustavam mulheres e crianças e parecia ser um dos homens da feira; brincadeiras sobre burros, bodes, jegues, brigas de galo... Mas sempre motivos de uma boa discussão, ou de uma briga. Ainda noutro momento o movimento da feira assemelhava-se a uma serpente. Boiadas que cruzavam as ruas da feira, tropa que era puxada e atraiam olhares, vai-e-vem de vendedores de galinhas, ovos, caça moqueadas e de fadas! Também de crianças que brincavam de gude, pião e de futebol num campo pra lá de improvisado, onde carcaças de bois eram usadas como balizas de gol. A serpente caminhava, e pedaços da feira, ora uns mais que outros, pegavam fogo! Literalmente assados de carnes de boi, de carneiro, de bodes, ou frigideiras que cozinhavam mocotós, fatos, ou maxixes e quiabos, eram arrumados sobre fogões pré-históricos, as fogueiras, que eram mantidas acesas por mulheres rezadeiras, bruxas mantidas vivas nos tempos modernos, que receitavam banhas de carneiro para curar reumatismos, rezas para afastar mal-olhados, chás diversos para tosses, dores pelo corpo e sensações de enjôos. Quando o caso era mais delicado, aí só se tinha um jeito! Uma garrafada feita com a mistura de diversas ervas, e a banha do peixe-elétrico, trazida lá de um mundo bem distante! Não se teria mais problemas! Ainda tinham as receitas para aqueles casos de... hum... bem...fraquezas sexuais, digamos assim. Gemadas, catuabas, amendoim, ovos de codorna, mel, e... caldo de mocotó! Sim o mais perfeito, o mais eficaz já produzido para combater tal situação... errr... vexatória! Não havia um só registro de um sujeito que precisando, tomou o caldo e não teve seu problema resolvido. Teve até um daqueles considerados im-pos-sí-veis, que apenas foi acrescentado ao seu estado de necessidade, ovos de codornas. Foi uma apelação! Ovos de codorna e caldo de mocotó! Levantava por vinte e quatro horas o sujeito. E deixava qualquer fada ciente e satisfeita da sua escolha. Claro. Também quem duvidaria de uma mistura dessa? Teve até o caso de um rapaz que, vindo das bandas da praia, demorou de se engraçar pros lados da fadas! E era encanto prá lá, encanto prá cá... e nada! O sujeitinho não se abalava. Vai ver era porque tinha se acostumado a ver tantas dançarinas de forró nas praias, que ali as fadas não estavam conseguindo o ponto de aproximação.
Dona de uma barraca que vendia frigideiras e outras coisas mais, Fulana resolveu pegar de jeito o rapazote: convidou-o para tomar um caldo, misturado a uma cerveja e pequenas porções de ovos de codorna. O camarada começou a ficar sem jeito já que não conseguia controlar mais a situação. Estava pegando nos trinco, e as fadas... Ah! as fadas... pareciam cada vez mais deliciosas... agora era só aquela acertar o encanto e... pronto! Mais um freguês que sairia satisfeito e mais um marido ou amante-tirado-a-dono, que se dava mal... Reclamar do quê? Com quem? Somente uma solução: Faca versus facão. Facão versus peixeira. Porrete versus ferro de pendurar carne de boi – aquele que tanto se vê nos açougues, segurando quartos e mais quartos inteiros de uma vaca ou de um boi. E aí... sol e nuvens como testemunhas. Se fosse noite, lua e candeeiros acesos que sempre revelavam sombras poderiam testemunhar. Talvez uma estrela que passasse prestando atenção às coisas da Terra. Se não... mais um tropel de burros, ou de cavalos, sumiria se misturando à noite, a escuridão. Apenas mais um bucho furado esperando ser costurado, se houvesse tempo, ou transformando-se num pedaço de cadáver.
Os cavalos e burros e jegues, animais que também esperavam pelo pós-feira, eram animais sabidos. Encostavam-se numa árvore ou perambulavam pelas ruas da feira, quando conseguiam se soltar, e danavam a comer de tudo que encontravam. Mas sabiam que assim que fossem chamados para a volta – fosse ela sob calma, sob vexame ou sob gritos estridentes de confusão que havia – eles sempre saberiam o que fazer. Se tivessem com um bêbado no lombo, calmamente tomariam o caminho de casa e lá chegariam; Se tivessem com um necessitado de fuga, o puxar das rédeas revelaria uma pressa e o galope sairia com tanta naturalidade que faria confirmar o conhecimento que estes animais possuíam sobre a vida dos seus vaqueiros-donos: mais um ganhava estrada... mais um fugia e deixava para trás um rastro de sangue que nenhum destino conseguia apagar, rastro tecido a renda. Nós, de parcas que previam o acontecimento e tomavam partido, poupando a vida do fujão, aquele que fora escolhido há poucos instantes pela mulher-fada. No outro dia, todos teriam do que falar, ainda que fosse proibido revelar abertamente qual o partido, qual a versão que lhes parecia mais precisa, a mais próxima de uma verdade. Contariam casos. Sob luzes fracas de fifós, apenas contariam casos; revelariam detalhes que nem as parcas teceram. Movimentos de armas, de rédeas, de pulos, de cavalgadas e arremates finais, que apenas seus filhos e netos, ouvintes, ficariam sabendo. E um dia passariam para seus descendentes. E aquela noite pós-feira seria tornada mágica para aquele grupo, por aquele grupo que contava casos sob as luzes dos fifós.
Numa destas ocasiões, compadres e amigos, todos da parentalha, participariam da roda de caso. Avôs, netos, pais, filhos, compadres, afilhados, tios, sobrinhos, amigos... Todos os presentes, todos os ouvintes, todos contadores de detalhes dos casos. E eram tantos detalhes que, às vezes, uns casos se misturavam a outros, umas noites se misturavam a uns dias e ninguém mais, absolutamente ninguém mais, poderia recompor aquela história, se não estivesse ali, se não estivesse sob aquela luz, sob aquelas vozes, bebendo daquela cachaça, enquanto lançavam olhares para os céus, enquanto lançavam olhares para o mato, enquanto acendiam seus bodes e davam deliciosas baforadas ao vento, como se estivessem participando de um ritual sagrado, onde cada movimento fora estudado nos mínimos detalhes; cada movimento revelava o sujeito e sua participação na hierarquia daquele grupo. Às vezes, o grupo contava até com quem fora escolhido pelas fadas, ou quem fora marido traído, ou amante num dia de crimes, bucho furado, mas poupado da morte. E, quando este falava, quando contava a sua versão sobre o ocorrido, tudo à sua volta era silêncio total. Parecia que a magia do lugar, do ritual, transformava-o num uirapurú e todos precisavam apenas ouví-lo: saber do sujeito encantado, ou traído, como se dera o ocorrido, como tudo se sucedera. E ele ia revelar agora, naquele momento, para todos os presentes. Amém! Ninguém mais saberia.
Claro que o sujeito-uirapurú omitiria alguns detalhes do caso. Se fosse ele o encantado, o furador de bucho, jamais revelaria qual o compadre lhe dera acolhida naquela noite. Não poderia fazer isto. Apenas o compadre, um dia, sob outras luzes, sob outros candeeiros, poderia ritualizar o acontecido. Poderia dizer, enquanto acendia, enquanto fabricava mais um bode, detalhes do que ocorrera naquela noite pós-feira. O sujeito-uirapurú daquele momento seria o compadre da acolhida. Ele, que fora acolhido, jamais poderia revelar sobre seu compadre. Mas poderia dizer sobre o galope, sobre sua mágica mistura à noite e seu desaparecimento! Poderia dizer sobre seu facão, ou peixeira. Poderia revelar sobre gancho de carne, guardado como trunfo. Poderia falar sobre seus caminhos e sobre sua fada! Também somente ele falaria. Somente ele poderia ser dono de uma verdade naquele momento. Ninguém o desafiaria. Nem uma criança, menino-homem que ouvia o caso e poderia, na sua inocência, perguntar-lhe sobre algo que não escapara da mente brilhante de todos os meninos! Não, não poderia! Aprendera que o uirapurú poderia e deveria ser apenas ouvido. Ele já sabia disto. O destino lhe informara que, sendo sujeito daquele grupo, participante daquele ritual, estas perguntas que passavam na sua cabeça não poderiam de jeito algum, ser formuladas, interrompendo o sujeito-uirapurú. Ainda bem que aprendera, se não, poderia ser chamado para sair da roda do caso, da roda que insistia em revelar como seria a vida. Como poderia um dia começar, ou terminar a sua vida de adulto. Fadas chamar-no-iam para a iniciação (haviam percebido que já era hora). Por enquanto, menino, cala a boca! Apenas escuta, inspira-se, conversa contigo mesmo e com as estrelas do céu. Ninguém mais pode te ouvir, ninguém mais poderá aproxirmar-se ou ler ou seus pensamentos. Ou entrega seu destino aos oráculos do teu mundo, feiticeiras- caboclas, que rezam, dançam e fazem alguns ‘trabaios’. Só isso. E a revelação pode não te agradar. Cala, então.
Ainda ortodia, um fio de cumpade Miguel fez comentário sobre uns casos ouvidos numa roda. Pronto. Bastou! Era só isso que faltava. Imediatamente deu uma tremedeira no corpo... Começou a rodar que nem peru, cuspia fogo pela boca, rosnava, xingava a mãe, o pai... Pobre do compadre Miguel! Até que chamaram o Padre Frisco, que veio do estrangeiro, e fez uma reza daquelas brabíssimas e afastou a maldição! O menino saiu como se nada tivesse acontecido e esquecidinho de tudo! Nunca mais tocou no assunto da roda do uirapurú, nem foi permitido participar das rodas à noite nas beiras das fogueiras, ou sob as luzes do fifó.
Numa noite de lua cheia, daquelas em que se fala de lobisomens e outros seres misteriosos que povoam as cabeças dos moradores da região, um grupo da comunidade saía para pescar quando foi informado da presença do bicho-da-maré lá pras bandas da curva do rio, perto das jabuticabeiras, encostado no cercado dos pés de goiabas. Estava ferocíssimo e já havia rasgado três redes de pescadores que pensaram em fisgá-lo. Iludidos. Pobres pescadores. Para pescar um bicho destes, ou pelo menos afastá-lo da comunidade, era preciso um homem mais conhecedor das magias da localidade. Das manhas e artimanhas do berço do rio... E o Senhor da Canoa estava pronto: Ia pegar o barco, suas redes mágicas, seu facão – não poderia esquecer-se do facão. Sempre ajudava-o nos momentos mais difíceis. Diante da onça, diante da assombração, diante da serpente venenosa da caverna sem fundo... Onde estava o Senhor da Canoa, estava o facão. E o bicho-da-maré sairia dali de qualquer maneira! O velho remava devagar... Também fumava seu bode e remava como se estivesse no meio da Via-Láctea, no meio das estrelas... Não deixava marcas por onde passava. Ninguém que não o visse, saberia que passou por ali. Largou o bode ao se aproximar da curva... Puxou a rede e começou a alisá-la. Parecia conversar com os fios... Com os nós... Parecia conhecer cada pedaço que se unia ao outro, e poderia passar por louco, ora! Conversar com uma rede?!? Quem faria isso? Na verdade, não era uma conversa... Não. Talvez não tivéssemos olhado direito. Ele de forma alguma estaria conversando com a rede. Estava rezando-a, estava benzendo-a! Precisava de uma reza, de uma oração para enfrentar tamanho adversário. Não poderia ser apenas com uma rede daquelas que se pegaria o bicho-da-maré . Daquelas se pegava traíra! Peixe pequeno. Um monstro precisaria de muito mais!!! Então tá. Era na entrada da curva. Já dava para ouvir os movimentos do bicho, sua respiração quando subia à superfície e se parecia com um baita peixe estranho! Precisava jogar a rede e acertar de primeira. Não poderia errar. Faltava pouco... era só esperar o bicho subir. Faltava pouquíssimo. Pronto. Lá vinha ele. Parecia vir com muita velocidade. Parecia saber que algo lhe esperava. Subia aterrorizantemente. Mal tocou a superfície e a rede foi lançada. Parecia ter vida. Saia das mãos do Senhor e parecia ganhar personalidade. Primeiro era só um bolo, agora ia se metamorfoseando. Lembrava uma borboleta... Agora uma arraia, um morcego gigante, um cogumelo que caía... pronto! Bem na fronte do bicho-da-maré ! Acabaria ali os temores da comunidade, o medo dos meninos que iam banhar-se no rio, o pavor dos sonhos à madrugada... Acabariam muitos sofrimentos de famílias que não viram seus filhos voltarem depois de uma pescaria. Era só esperar que a rede mágica, enfeitiçada pelo Senhor fizesse a sua parte. Enquanto isso ele suava. Apenas isto demonstrava que era humano, demasiado humano. Apenas este suor que lhe escorria pelo rosto, em plena noite de lua, fazia saber quem era aquele Senhor das águas. Não esperava nada mais. Apenas o destino da rede. Veio a surpresa. O monstro rasgara a rede. Rasgara a rede, as rezas, as magias, e dirigia-se para aquela canoa de onde havia partido o arremesso. Só não sabia o animal que este movimento era esperado. A rede fizera sim a sua parte. Tocara-o. Fizera-o menos invencível, menos inatingível pelo mais temível dos golpes do Senhor da Canoa, que nunca abandonara seu destino: Da sua mão direita partira o facão numa velocidade estonteante. Partira e rasgara a sua pele, o seu couro, a sua vida... Partira o bicho-da-maré e uma corda era o que precisava para arrastá-lo até a canoa e levá-lo até a comunidade. Daria carne para muitos dias, para várias pessoas. E poderiam preparar seus barcos, suas próximas partidas, suas pescarias, pois dispunham do alimento. Festejariam. Bebida, fogueira, rodas de conversa, casos, e peixe frito. Aliás, bicho-da-maré frito. E risadas, desejos, encantos meninos, e fadas! Que esperariam o momento certo para mais uma investida. Quem seria acertado pelos seus encantos? (...)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Natureza humana

Somos seres encantados
E viramos serpentes
A nossa missão?
Como se não soubesses
Armar-nos
E
Com os dentes


Augusto Spínola Jr

Gente da feira - perfil

...Foi quando
Vindo da Feira de Santana
Desceu
Na rodoviária
Vestido com jaleco e
Chapéu de couro

Não usava
Mais
Bocapio
Mas
Um alforje
De caçador
Igual ao de
Zé Ramalho
Não vinha
Fugindo da seca
De Graciliano Ramos
Mas para ensinar
E
Aprender histórias
Sina de vaqueiro
Sina de tropeiro
Que vive
Comercializando
Palavras.


Augusto Spínola